Temporada realizada no Teatro experimental Waldemar Henrique em Maio de 2009.
sem cor, sem perfume, sem margarida. escrito em sexta 20 novembro 2009 05:13
CARTA escrito em sexta 31 julho 2009 09:35
Amado,
Gostaria de escrever mais, mas não tenho tempo. Daqui há pouco vão chamar meu vôo e eu precisarei ir. Quero aproveitar que aqui no aeroporto tem uma agência dos correios e te mandar essa carta. Antigo isso, não? Carta com envelope listrado de verde e amarelo e selo. Quanto tempo não fazia isso! Pensei mesmo em te mandar um e-mail depois que nos separamos ontem, mas não há nada mais frio e impessoal que aquela tela iluminando a cara da gente e nem eu nem tu gostamos de luz. Lembras que rasgaste toda a minha Bravo! e eu nem tinha lido, só pra vedar os quadrados de vidro da porta da varanda do meu quarto? A fita crepe acabou e a gente usou tachinhas e até cola de isopor e o resultado foi uma merda, mas o sol ficou lá fora, longe da gente, abraçados por um tempo que eu não sei quanto.
Vou pedir pro meu irmão passar na tua casa e pegar as minhas coisas. Ficaram poucas, mas na pressa, sabes como é. Mas só as minhas coisas. O que te dei é teu e se não quiseres mais, queima, rasga, joga fora, mas não me devolvas. É como se dissesses que tudo aquilo não significou nada naquele momento só porque agora já não somos mais nós. Cada poema que te escrevi, tosco eu sei, cada um, cada canção, CD, livro, camiseta, planta, beijo, abraço, alfinetada, zanga, fruta, telefonema, desculpa, ingresso de cinema, sorvete, balinha de hortelã, eu mesmo, cada coisa que te dei tem seu porque e essa razão continua a ser, ainda que não sejamos mais. Por favor, não retires de ti o (pouco) que de mim ficou. Ok, o bolo vai pro lixo. Compraste pra mim, mas não comes bolo e eu meti colher suja nele. Joga logo fora antes que azede.
Vão dizer muita coisa. De mim, de ti, dessa minha viagem. Assumo que tô fugindo. Esse trabalho não é financeiramente tão significativo e não vai me dar qualquer prazer, ou crescimento, mas vai me tirar dessa cidade onde tu moras, da rua em que eu vou insistir em passar, do cheiro da carne de panela da tua mãe e dos incontáveis porquês da minha que não pára de perguntar o que aconteceu, quem fez o quê e, pior de tudo, se eu estou bem. Como é que eu posso ficar bem? Fala! Mas tu não vais falar. Vais ficar naquele não-dito constrangedor e palpável e quando muito vais me olhar e dizer que não. Falhei contigo, foste injusto comigo, ou melhor, conosco, mas não cabe culpa a nenhum de nós. (A moça de voz gostosa já chamou duas vezes! O relógio é implacável, não?!). Também não cabe sofrimento. Doer vai doer porque feriu. Disso a gente não foge, mas sofrer eu decidi não sofrer e espero que faças o mesmo que eu te amo demais pra te saber sofrendo.
Tanto pra te dizer, mas não há mais tempo. Assino no guichê enquanto espero o troco e todo mundo me xinga que eu furei a fila.
Última chamada, a dona diz
O que tu queres, o que eu quis
Não tem mais cor, sabor, perfume, nada
Se o tempo separou a nossa estrada.
(ainda) te amo.
H!
Maio de 2009 AD.
RESPOSTA escrito em quinta 30 julho 2009 09:38
Querido,
Envio esta pelo teu irmão que não quis me dar teu endereço. Tudo bem. Não sei onde moras, saíste de Belém, não atendes o teu número daqui e eu sei que o manténs e até o e-mail não te dignaste responder. É desse jeito. Vês que infantilidade a tua? E quantas vezes foi assim? Dizes que eu não falava. Mas me deste a chance? Tu já tinhas a resposta quando fazias a pergunta, já tinhas decidido quando me pedias a opinião. A cor da sala, o nome do cachorro, o banco da nossa conta felizmente não conjunta, os programas de fim de semana. Tudo já estava decidido e ainda dizias “A gente combinou isso. Tu não lembras?”. Daí eu me calava. Não. A gente não tinha combinado, mas nada que eu dissesse te faria mudar de opinião. E eu não podia com isso: tua opinião. Ainda não posso. Daí chegamos numa encruzilhada que eram os meus pontos de vista e os teus, num cabo de guerra. A vida a dois é compartilhada. Concessões, não anulações e era assim que eu me sentia às vezes: anulado. Ok que eu sou culpado disso, se aqui cabe culpa como dizes. Eu dei corda. Sempre preferi não programar nada e deixar que tomasses a iniciativa. Mas daí a não considerar o que eu queria já é demais. E olha que eu te disse isso pra mais de mil vezes.
Acaso pensas que eu não sinto a tua falta? Que já ocupei tua vaga como se fosse um tabuleiro de xadrez? Se achas que eu sou assim então não me conheces, ou desconheces, ou não reconheces quando te dizia – e ainda digo – que te adoro tanto e tanto. Até comprei café mês passado e eu nem bebo café. É tanta comida estragando na geladeira e só a cerveja acaba bem depressa porque estou bebendo mais. E voltei a fumar. E ninguém veio aqui. Esse é o nosso lugar. Não é a minha casa como disseste. Construímos isso juntos. Não consigo imaginar alguém que não sejas tu deitado naquela cama. E ela tem sido imensa.
Percebi todas as tuas xavecadas. Não esqueças que eu te conheço. E como! Mas não vou vestir a carapuça. Não. Isso não. Desde o princípio eu sempre fui honesto contigo. Posso ter falado pouco, mas tudo o que disse era a expressão real do que eu sentia. Do que eu sinto.
O que me deste está guardado comigo. E o que foste pra mim é tesouro bem maior. Não me deixa de fora da tua vida mais do que esse tempo todo já deixou. Deixa eu saber de ti, falar contigo. Sejamos os amigos que sempre fomos.
Apesar de tudo, não consigo te esquecer.
Do (ainda) teu.
W!
Junho de 2009 AD.
23 de junho de 2009 AD
17h45
Belém, Pará
sem cor, sem perfume, sem margarida. escrito em terça 19 maio 2009 04:21
Sem cor, sem perfume, sem margarida.
A Companhia Nós do Teatro, traz agora aos palcos o espetáculo “Sem Cor, Sem Perfume, Sem Margarida”, diálogo entre a obra de Caio Fernando Abreu, escritor gaucho de grande visão poética e dramática do mundo contemporâneo, e contos e poemas de Rodriguez Neto, ator, diretor de teatro e fundador da companhia.
Encenação que afirma e desenvolve a pesquisa da Cia no processo de criação do ator. Não se trata de um treinamento ou de um simples processo de concepção de personagem, mas de uma investigação acerca da utilização de todos os atributos físicos e emocionais que levem os atores a desenvolver sua poesia corporal para estabelecer o jogo cênico.
Todo e qualquer elemento, inclusive os cênicos, funciona como desencadeador das reações corpóreas e emotivas no atuante e a poesia se concretiza com todos os recursos técnicos teatrais. Tudo é cuidadosamente pensado e planejado para a estética do espetáculo. A visualidade reforça a poesia dos textos. A cenografia, a iluminação cênica, os adereços e os figurinos são reforçadores da leitura imagética do espectador dos textos utilizados em cena.
O espetáculo traz em sua trama a estória de um Homem que se encontra dividido entre o amor de um jovem, André, e uma mulher capaz de tudo, até a morte, para realizar suas vontades: Marta. Revelando aflições, desejos, segredos e toda a poesia existente e propulsora da paixão em um triângulo amoroso.


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